#texto4 | cansaço
Acho que não precisa, né?
Trecho do livro Sociedade do cansaço de Byung-Chul Han
Postei um vídeo sobre o assunto neste link no Instagram que pode te interessar. Fique à vontade para compartilhar com quem desejar. <3
Antes de tudo, para recomeçar da forma mais honesta possível, queria dizer uma verdade que tem sido muito dolorosa para mim atualmente: eu estou cansada. Não cansada do tipo de quem precisa de longas horas de sono, mas exausta a tal nível que me sinto com dificuldade de pensar, quem dirá criar. Tenho vivido no automático, existido para respeitar prazos e manter um salário no fim do mês. Longe de estar reclamando, afinal, tantas pessoas vivem em constante estado de insegurança financeira, mas, sim, reclamando. Reclamando porque essa tem sido a minha realidade, e ela tem sido sufocante. Sei que não sou a única, e me pergunto: era isso que nós estávamos buscando?
Embora ache que pudesse, não venho aqui criticar nenhum modelo econômico, muito menos apontar a participação que ele tem nas estruturas profissionais e produtivas que temos hoje em dia, porque é nele que estamos inseridos. Hoje, mais do que isso, busco um diálogo franco sobre como me sinto cansada, o quanto isso afeta as minhas criações e, mais uma vez, digo: sei que não estou só.
O processo criativo, embora vejamos um monte de receitas de bolo, envolve, antes de tudo, o que somos, quem somos e o que pensamos. Produzimos para os outros, mas produzimos pelos nossos olhos, mãos e cérebro. É impossível separar a nossa experiência da sopa primordial da nossa criação. Aliás, nem devíamos tentar. Acontece que, com o ritmo acelerado, a alta demanda e a necessidade de performance a todo tempo, torna-se impossível criar com qualidade e, pior ainda, não se contaminar por essa dinâmica enlouquecedora. O quanto de nós se perde nessa jogada? Quantos projetos, ideias e sonhos estão guardados na gaveta porque não existe energia para levá-los adiante, quem dirá tempo**, pois** estamos ocupados demais em sobreviver?
Deveríamos viver uma vida criativa, e isso independe da carreira que se escolhe, mas estamos tomados demais por necessidades que impedem que o pensamento criativo flua como num flow. O que temos, na real, são protocolos, fórmulas e modelos criativos já validados, que são usados como recursos para que sejamos capazes de entregar tudo o que precisamos até o fim do dia. Quantas vezes você já não se viu entregando demandas parecidas com outras porque sabia que seriam aprovadas e não teria tempo de pensar melhor? Quantas vezes cozinhou o mesmo prato na semana porque não havia tempo de elaborar nada novo? E aquela roupa que você constantemente repete porque sabe que dá certo, mas que já tinha se prometido experimentar novas combinações? Tudo isso diz respeito à nossa criatividade e à forma como exercemos o direito que temos de usá-la no dia a dia. Pelo visto, como vemos, limitado.
Como eu disse no início: eu estou cansada, muito cansada. Mas penso que talvez o diálogo seja o único caminho para remexer os espaços que ainda estão vazios e colocar ordem na casa para, então, construir de novo uma vida mais criativa. Para mim, para você e para todos. Talvez eu fale sozinha, mas já faço isso com alguma frequência. Se você se identificou e quiser expor sua opinião ou experiência, o canal está aberto, e eu quero te ouvir.
Nos vemos na próxima? Eu espero que sim.


